Texto publicado no site Carta Maior - www.cartamaior.com.br/
Destoando dos discursos feitos pelos seus pares durante a 68ª Assembleia
Geral da ONU, o presidente uruguaio José Mujica criticou veementemente o
consumismo.
O presidente uruguaio voltou a
surpreender o mundo com o seu discurso desassombrado na última terça-feira na
Assembleia Geral das Nações Unidas. Aos jornais uruguaios, Mujica prometera um
“discurso exótico” e de fato fugiu do protocolo ao dizer que “tem angústia pelo
futuro” e que a nossa “primeira tarefa é salvar a vida humana”.
“Sou do Sul e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrônica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazônia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância.”
“Sou do Sul e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrônica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazônia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância.”
A humanidade sacrificou os deuses
imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado, que organiza a economia, a
vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir
e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a
autoexclusão”. No mesmo tom, sublinhou o fracasso do modelo adotado no
capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano
médio seriam necessários três planetas. A nossa civilização montou um desafio
mentiroso”.
Para o chefe de Estado, que já havia
surpreendido o mundo com o seu discurso durante a cúpula Rio+20, criamos uma
“civilização que é contra os ciclos naturais, uma civilização que é contra a
liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo
livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite ter tempo
para viver as relações humanas”, porque “só o amor, a amizade, a solidariedade,
e família transcendem”. “Arrasamos as selvas e implantamos selvas de cimento.
Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com remédios. E pensamos que
somos felizes ao deixar o humano”.
Mujica defendeu a utilidade da produção
de recursos no mundo: temos que “mobilizar as grandes economias não para
produzir descartáveis com obsolescência programada, mas para criar coisas úteis
para a população mundial. Muito melhor do que fazer guerras. Talvez nosso mundo
necessite de menos organismos mundiais, destes que organizam fóruns e
conferências. E que no melhor dos casos ninguém obedece”. “O que uns chamam de
crise ecológica é consequência da ambição humana, este é nosso triunfo e nossa
derrota”.
E defendeu que é através da ciência e
não dos bancos que o planeta deve ser governado.
Paz e guerra
Paz e guerra
“A cada 2 minutos gastam-se 2 milhões de
dólares em orçamentos militares. As investigações médicas correspondem à quinta
parte dos investimentos militares”, criticou o presidente ao sustentar que
ainda estamos na pré-história: “enquanto o homem recorrer à guerra quando
fracassar a política, estaremos na pré-história”, defendeu o mandatário ao
criticar a política da guerra.
Assim, criamos “este processo do qual
não podemos sair e causa ódio, fanatismo, desconfiança, novas guerras; eu sei
que é fácil poeticamente autocriticarmos. Mas seria possível se firmássemos
acordos de política planetária que nos garanta a paz”. Ao invés disso,
“bloqueiam os espaços da ONU, que foi criada com um sonho de paz para a
humanidade”.
O uruguaio também abordou a debilidade da ONU, que “se burocratiza por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e de uma democracia e de um mundo que corresponda à maioria do planeta”.
O uruguaio também abordou a debilidade da ONU, que “se burocratiza por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e de uma democracia e de um mundo que corresponda à maioria do planeta”.
“Nosso pequeno país tem a maior
quantidade de soldados em missões de paz e estamos onde queiram que estejamos,
e somos pequenos”. Dizemos com conhecimento de causa, garantiu o mandatário,
que “estes sonhos, estes desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma
agenda de acordos mundiais para governar nossa história e superar as ameaças à
vida”. Para isso é “preciso entender que os indigentes do mundo não são da
África, ou da América Latina e sim de toda humanidade que, globalizada, deve se
empenhar no desenvolvimento para a vida”.
“Pensem que a vida humana é um milagre e
nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico é acima de todas as
coisas, impulsionar e multiplicar a vida e entendermos que a espécie somos nós”
e concluiu: “a espécie deveria ter um governo para a humanidade que supere o
individualismo e crie cabeças políticas”.