quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Solução privado para um problema de política pública

Há algumas semanas a Rede Globo de telecomunicações apresentou num dos programas dominicais mais tradicionais da televisão brasileira, uma reportagem sobre mobilidade urbana, em que retrata o sistema de transporte público ferroviário nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Além do impacto das imagens televisivas e dos dados estatísticos apresentados por alguns técnicos, não observamos nada de novo na problemática mais contemporânea do cidadão brasileiro, o transporte público.

Essa temática também vem pautando a capa dos maiores jornais impressos da cidade de Fortaleza. A diferença, é que por aqui o problema é o transporte realizado pelos ônibus e o modelo dos terminais de ônibus, já que o sistema metroviário depois de décadas de investimentos é quase inexistente.

Sobre o modelo de terminais de ônibus vale fazermos algumas considerações. Estamos falando de uma solução de mobilidade urbana genuinamente tupiniquim, isto porque, essa “inovação” não chegou ao continente europeu. Uma solução extremamente ineficiente do ponto de vista econômico e, sobretudo, do ponto de vista do ordenamento urbano da cidade. Grandes espaços urbanos destinados a essa infraestrutura em que os modais de transporte não conversam entre si, ou seja, intermodalidade é algo que não pousou nessas terras. E será que podemos falar em comunicação entre ônibus interurbanos, linhas de trem e metrô em Fortaleza?

Por outras partes do mundo, o bilhete utilizado no ônibus permite fazer integração dispensando a necessidade de terminais. Bem, essa ideia genial começou a ser implantada em Fortaleza, com uma diferença, por aqui o cidadão precisa fazer um cadastro e esperar 10 dias pra receber o cartão. Parece piada! O bilhete não poderia ser um papel comum? Talvez não, se não qual seria a função dos terminais!?
Segundo dados da Prefeitura de Fortaleza, o sistema de transporte público transporta aproximadamente 1 milhão de passageiros que utilizam diariamente o serviço de ônibus e, grande parte destes circulam pelo “salve-se quem puder” dos terminais.

Esse caos do transporte público associado a políticas públicas paliativas e desastrosas tem estado presente nas grandes cidades brasileiras. Esse modelo cruel atinge toda a população, inclusive os proprietários de transporte privado. Basta olharmos para o clima nada amistoso, muito menos gentil, nas ruas das capitais brasileiras. Este é um reflexo da falta de respeito dos governantes com a população. As pessoas estão a todo instante disputando espaço, sejam os carros particulares nas ruas, sejam os usuários de transportes públicos nos terminais e dentro dos ônibus lotados.

Um dado interessante divulgado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, ressalta que nos horários de pico, cerca de 78% da área disponível nas vias públicas fica debaixo de automóveis convencionais. Só que o número de passageiros que trafega nesses automóveis é muito pequeno – mal chega a 28% das pessoas em trânsito. Enquanto isso, os ônibus seguem a proporção inversa: espremem-se em 8% do asfalto, mas carregam até 68% dos passageiros da cidade.
Não é à toa que estão sempre lotados e demoram horrores!
No fim da década de 1980, Fortaleza contava com vias exclusivas para ônibus em avenidas como Antônio Sales, Sargento Hermínio e dos Expedicionários. Essas faixas foram extintas para que abrissem espaço para mais carros nas ruas, ou seja, mais uma vez, a lógica do transporte individual sobre o coletivo. Esse hiato do transporte público tem em sua essência a marca registrada das políticas brasileiras que é a convivência “harmoniosa” com as desigualdades sociais.
Enquanto as metrópoles mundo a fora, estão fechando ruas para o acesso de carros ou limitando seu acesso para abrir espaços para os pedestres, parcela de fortalezenses fazem campanha para a construção de viaduto, nem que para isso, área de preservação ambiental seja desmatada. Não precisamos ir tão distante para vermos mobilizações vanguardistas. Em Recife nos finais de semana algumas avenidas do centro antigo são fechadas para os carros. Uma cidade como Fortaleza, que conta com pouquíssimas áreas de parques e praças públicas, possui a maior extensão de espaços públicos destinadas aos carros. É algo no mínimo controverso!
Investir na expansão da malha viária urbana não é solução. Ao contrário, significa aumentar o subsídio ao uso do automóvel. Que por sinal está em pleno vapor no Brasil desde os tempos de JK. É dinheiro público usado para subsidiar o transporte individual. Isto porque no Brasil, possuir carro é sinônimo de ascensão social. E por que não dizer sinônimo de desenvolvimento? Enquanto na realidade, deveria ser menos necessidade de usar carros!

O pior é que uso do automóvel impede o surgimento de alternativas, pois expulsa o pedestre, o ciclista e faz que o transporte coletivo de superfície seja absurdamente lento e ineficiente.


Resta ao cidadão sonhar com o dia em que os jardins e os calçadões substituirão o asfalto dos automóveis. Ai o círculo virtuoso de civilidade, convívio e criatividade, poderá abrir espaço para a tão almejada qualidade de vida.