Há
algumas semanas a Rede Globo de
telecomunicações apresentou num dos programas dominicais mais tradicionais da
televisão brasileira, uma reportagem sobre mobilidade urbana, em que retrata o
sistema de transporte público ferroviário nas cidades de São Paulo e Rio de
Janeiro. Além do impacto das imagens televisivas e dos dados estatísticos
apresentados por alguns técnicos, não observamos nada de novo na problemática
mais contemporânea do cidadão brasileiro, o transporte público.
Essa
temática também vem pautando a capa dos maiores jornais impressos da cidade de
Fortaleza. A diferença, é que por aqui o problema é o transporte realizado
pelos ônibus e o modelo dos terminais de ônibus, já que o sistema metroviário
depois de décadas de investimentos é quase inexistente.
Sobre
o modelo de terminais de ônibus vale fazermos algumas considerações. Estamos
falando de uma solução de mobilidade urbana genuinamente tupiniquim, isto
porque, essa “inovação” não chegou ao continente europeu. Uma solução
extremamente ineficiente do ponto de vista econômico e, sobretudo, do ponto de
vista do ordenamento urbano da cidade. Grandes espaços urbanos destinados a
essa infraestrutura em que os modais de transporte não conversam entre si, ou
seja, intermodalidade é algo que não pousou nessas terras. E será que podemos
falar em comunicação entre ônibus interurbanos, linhas de trem e metrô em
Fortaleza?
Por
outras partes do mundo, o bilhete utilizado no ônibus permite fazer integração
dispensando a necessidade de terminais. Bem, essa ideia genial começou a ser
implantada em Fortaleza, com uma diferença, por aqui o cidadão precisa fazer um
cadastro e esperar 10 dias pra receber o cartão. Parece piada! O bilhete não
poderia ser um papel comum? Talvez não, se não qual seria a função dos
terminais!?
Segundo
dados da Prefeitura de Fortaleza, o sistema de transporte público transporta
aproximadamente 1 milhão de passageiros que utilizam diariamente o serviço de
ônibus e, grande parte destes circulam pelo “salve-se quem puder” dos terminais.
Esse
caos do transporte público associado a políticas públicas paliativas e
desastrosas tem estado presente nas grandes cidades brasileiras. Esse modelo
cruel atinge toda a população, inclusive os proprietários de transporte
privado. Basta olharmos para o clima nada amistoso, muito menos gentil, nas
ruas das capitais brasileiras. Este é um reflexo da falta de respeito dos
governantes com a população. As pessoas estão a todo instante disputando
espaço, sejam os carros particulares nas ruas, sejam os usuários de transportes
públicos nos terminais e dentro dos ônibus lotados.
Um
dado interessante divulgado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de
São Paulo, ressalta que nos horários de pico, cerca de 78% da área disponível
nas vias públicas fica debaixo de automóveis convencionais. Só que o número de
passageiros que trafega nesses automóveis é muito pequeno – mal chega a 28% das
pessoas em trânsito. Enquanto isso, os ônibus seguem a proporção inversa:
espremem-se em 8% do asfalto, mas carregam até 68% dos passageiros da cidade.
Não
é à toa que estão sempre lotados e demoram horrores!
No fim da
década de 1980, Fortaleza contava com vias exclusivas para ônibus em avenidas
como Antônio Sales, Sargento Hermínio e dos Expedicionários. Essas faixas foram
extintas para que abrissem espaço para mais carros nas ruas, ou seja, mais uma
vez, a lógica do transporte individual sobre o coletivo. Esse hiato do
transporte público tem em sua essência a marca registrada das políticas
brasileiras que é a convivência “harmoniosa” com as desigualdades sociais.
Enquanto
as metrópoles mundo a fora, estão fechando ruas para o acesso de carros ou
limitando seu acesso para abrir espaços para os pedestres, parcela de
fortalezenses fazem campanha para a construção de viaduto, nem que para isso,
área de preservação ambiental seja desmatada. Não precisamos ir tão distante
para vermos mobilizações vanguardistas. Em Recife nos finais de semana algumas
avenidas do centro antigo são fechadas para os carros. Uma cidade como
Fortaleza, que conta com pouquíssimas áreas de parques e praças públicas,
possui a maior extensão de espaços públicos destinadas aos carros. É algo no
mínimo controverso!
Investir
na expansão da malha viária urbana não é solução. Ao contrário, significa
aumentar o subsídio ao uso do automóvel. Que por sinal está em pleno vapor no
Brasil desde os tempos de JK. É dinheiro público usado para subsidiar o
transporte individual. Isto porque no Brasil, possuir carro é sinônimo de
ascensão social. E por que não dizer sinônimo de desenvolvimento? Enquanto na
realidade, deveria ser menos necessidade de usar carros!
O
pior é que uso do automóvel impede o surgimento de alternativas, pois expulsa o
pedestre, o ciclista e faz que o transporte coletivo de superfície seja
absurdamente lento e ineficiente.
Resta
ao cidadão sonhar com o dia em que os jardins e os calçadões substituirão o
asfalto dos automóveis. Ai o círculo virtuoso de civilidade, convívio e
criatividade, poderá abrir espaço para a tão almejada qualidade de vida.