Texto
adaptado de matéria publicada no Jornal O Povo: “O poder e o luxo: complexo de luxo”.
(01/09/2013)
Quando
o luxo dos governantes é bancado por recursos públicos, fere-se o conceito de
estado republicano. O problema, ainda recorrente no Brasil, tem origens
históricas e culturais.
O
Brasil carrega até hoje a herança de povo colonizado. É o que defende a
professora do Departamento de Ciências Sociais da UFC, Neiara Araújo. Para ela,
o luxo com recursos públicos, é algo natural de um rei, mas, num Estado
Republicano não deveria existir. Segundo ela, quando a família real veio ao
Brasil, a ostentação era instrumento de manutenção da desigualdade.
Na
mesma linha, o professor de História da UFC, Sebastião Ponte defende que a
República deveria se pautar mais pela austeridade dos gastos e, não exercer
conduta semelhante aos regimes monárquicos. A
República pressupõe administração do bem público, a partir do interesse
público. Todavia, o limite entre o público e o privado, por vezes, não parece
muito claro para nossos gestores. De acordo com o cientista político David
Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), o problema é justamente
essa confusão entre o público e o privado. Para ele, além dos gastos abusivos,
é importante observar quem se beneficia com esse tipo de despesa, ou seja,
saber se os fornecedores são os mesmos doadores de campanha.
Para
Josênio Parente, o Brasil teve uma história onde a presença imperial trouxe
uma cultura de desigualdades entre as pessoas. Contudo, ele defende que a sociedade de mercado trouxe valores de
igualdade e liberdade que vêm sendo assimiladas com mais rapidez pelas novas
gerações.
O
que choca é o absurdo, gastos que se mostram surreais, a ostentação dos
representantes do Poder com recursos públicos, um modo de vida tão distante da
realidade, das necessidades e dos anseios de seu povo. Parente destaca que a
várias formas de demonstrar poder e a ostentação é uma delas. Para ele, o
limite depende da cultura da sociedade e da capacidade dela de reagir ou não à
forma como os recursos públicos estão sendo utilizados.
Parente
afirma que se os órgãos controladores são republicanos, eles vão limitar os
gastos, mas se órgãos são cooptados, aí entra como limite a opinião pública.
Neste ponto, podemos destacar o papel preponderante do povo, exercendo na
República, o que podemos chamar de “poderes paralelos” como exerce a mídia.
Prova disso, são os movimentos populares de protesto, que podem ser compreendidos como uma forma de fiscalizar e equilibrara balança dos três poderes (judiciário, legislativo e executivo).
Se
a população tem hoje ferramentas de controle social, como o Portal da
Transparência e Lei de Acesso à Informação, a fiscalização deste tipo de
prática esbarra na dificuldade de se regulamentar, caso a caso, o que pode e o
que pode não pode ser comprado com o erário. Diante da impossibilidade de se
regulamentar cada despesa, apela-se ao bom senso.
O
fundador do site Contas Abertas, Gil Castelo, afirma que o Estado não gera um
centavo e sobrevive às custas dos impostos dos cidadãos. Por isso, ele defende
que é preciso parcimônia e zelo ao usar recursos públicos. Para Castelo, há uma
tendência natural das autoridades fazer despesas com dinheiro público que
muitas vezes não faria como cidadão comum, com seu dinheiro.
Vale
lembrar a famosa frase dita por Dom Pedro II por ocasião da seca de 1888, que
assolou o Nordeste, especialmente o Ceará: “Venda-se o último brilhante da
coroa, contanto que nenhum brasileiro morra de fome!” Mais de um século depois,
a seca e a fome permanecem e as pedras da coroa estão intactas no Museu
Imperial de Petrópolis, no Rio de Janeiro.
Na
contramão dos gastos com dinheiro público com finalidade pessoal ou com atividades
supérfluas, também são identificados. O presidente do Uruguai, José Mujica, é
um desses casos. Já foi intitulado o presidente mais pobre do mundo, mas
rebateu dizendo que “pobre é quem precisa de muito pra viver”. Austero, leva
uma vida simples e doa 90% de seu salário, o equivalente a 28 mil reais, a
instituições de caridade.
No
Brasil, Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro das
Cidades, na gestão Lula, é também um caso de político que leva vida modesta.
Mora num velho apartamento de 64 metros quadrados, que levou 20 anos para
quitar. Tem um carro, mas que segundo ele nem sabe dirigir, se locomovendo de
carona ou de ônibus.
Dicionário
Patrimonialismo
Característica
de um Estado que não tem claro o limite entre o público e o privado, muito
comum no Absolutismo. É como se o Estado fosse patrimônio do governante. No
Brasil, o patrimonialismo chegou com o Estado colonial português.
Monarquia
Modo
de governo dos reis, transmitido hereditariamente, mantendo-se no cargo até a
morte ou abdicação. Na Monarquia Absoluta, o monarca tem poder absoluto para
governar por decretos, promulgando leis e impondo punições. Na Monarquia
Constitucional, o rei é submetido a uma constituição e seu poder político real
é mínimo, já que o povo é representado por um parlamento ou outra legislatura.
República
A
palavra tem origem no latim, significa coisa pública, administração do bem
público, do interesse público. Na República, o poder emana do povo. Antes de
ser República, nosso país era Império, governado por Dom Pedro II, que teve
poder absoluto durante 49 anos.
Para refletir
Por
que é tão comum, até os dias de hoje, gastos com o que soa supérfluo diante das
prioridades da população? O Patrimonialismo, tão característico desses atos,
teria origem ou raízes culturais? No médio e longo prazo, que medidas poderiam ser tomadas para que essa quadro de absurdo seja remediado?
A tanto tempo o Brasil vai se erguendo sobre essa linha desrespeitada entre público e privado. Abusar do patrimônio que é de todos se torna fácil quando o acesso a tanto poder monetário não implica em grandes consequências para os corruptos.
ResponderExcluirConcordo que esse problema seja algo de berço, chegando ao Brasil junto com os colonizadores, mas se perdurou por causa da ganância da maioria.
O povo se manifestou por melhorias e mudanças nas últimas manifestações que vimos em todo o país, porém agora vê-se um grande silêncio sobre o assunto. Quem costuma abrir os nossos olhos para o tamanho devastador da injustiça que nos assola são os jornais, programas investigativos e de debates com conflitos do opinião.
Diminuindo o salário dos nossos representantes públicos para algo mais justo, aumentando a fiscalização da circulação do dinheiro público e apurando justamente os crimes por corrupção acredito que melhoraria o funcionamento do poder público e fazendo campanhas contra a corrupção em todas as escolas para conscientizar as nossas crianças e jovens do perigo que se esconde atrás de um coração ganancioso.
Muito bom seus comentários Pâmela!
ExcluirFaz todo sentindo pensarmos no papel dos órgão fiscalizadores, os quais precisam ser independentes, amadurecidos, fundamentados sempre na isonomia e no apartidarismo. É por essa razão que alguns modelos de crescimento econômico incluem o papel das instituições, como variável preponderante para o desenvolvimento de uma nação.
Questões para reflexão:
É válido o pressuposto que para nos desenvolvermos precisamos construir instituições fortes? Por que?
Supondo que as instituições são feitas pela sociedade, como seria uma reforma institucional?
Abraços
Um estado é visto pela maeira como seus governantes o administram, a corrupção e o mal funcionamento das gestões do que é público tornam-se uma pedra no sapato do desenvolvimento. O mal aproveitamento dos bens públicos tornam mais difícil a caminhada para que possamos chamar o nosso país de desenvolvido. É fato que o nosso contexto histórico não colabora nesse sentido, mas como melhoraremos o futuro se nos prender-mos ao passado?
ResponderExcluirConciência é para todos, pena que não é de todos.
O Patrimonialismo é tão comum em nossa sociedade, se for considerado como cultura não será nenhum exagero. Isso para o brasileiro é ''normal'', não há nada a se fazer.
ResponderExcluirOs governantes podem até serem os que cortam essa linha entre o público e o privado, mas quem dá a ''tesoura'' a eles é a dona de casa ao fura fila, sou eu por não ir a rua manifestar, é aquele rapaz que não liga para política e vota pelo número do partido, nós deixamos qualquer um tomar conta do que nos pertence e fingimos estar tudo certo.
O cara que usa o nosso dinheiro já foi um de nós, agora ele tem poder.