Carta a um amigo Europeu.
No Brasil, existe quem acredite que todo o mal pode ser resolvido com a caça às bruxas ao PT, porque assim o mal da corrupção será extirpado de vez do País. Santa ingenuidade. Pergunte-me quem levantou essa bandeira da moralidade? Eles têm moralidade para tal cruzada? Esse mesmo grupo levantou alguma bandeira de mudanças estruturais para reestruturar e moralizar a mídia, o judiciário, o legislativo e o executivo? Se a resposta foi não, então sinto muito em informá-lo que suas curtidas, compartilhamentos e sentimento de dever a sua pátria amada foram em vão.
Na verdade, não é a aversão à corrupção que define o comportamento do brasileiro. Sempre convivemos harmoniosamente com ela. Nunca foi motivo de revolta popular. A questão é outra e encontra-se mais embaixo da superfície do noticiário simplista do dia-a-dia. Esse noticiário de apenas um lado, resumido e de fácil entendimento, típico tupiniquim que não consulta o contraditório e que não convida o povão à reflexão.
Em um país de forte e marcante história escravocrata, ainda hoje perceptível no perfil da pobreza e das favelas, existem nuances quase imperceptíveis que revelam uma defesa ferrenha da manutenção do status quo.
O brasileiro mediano revela um ódio velado a mudanças estruturais. Política social pra ele é uma prática patrimonialista de dar esmola a pobre. Toda política pública do PT foi duramente criticada (ex. bolsa família, luz para todos, mais médicos (copiado e expandido pelo Temer), ciência sem fronteiras...) Ele consegue, mesmo que involuntariamente, sentir-se ameaçado por políticas inclusivas (ex. vagas de universidades públicas destinadas a estudantes de escolas públicas). A classe média defende a meritocracia para seus filhos, os quais é claro frequentaram escolas privadas. Veja o nível da meritocracia nessa Terra! Essa mesma classe é contrária a qualquer tipo de cota, o que fica evidente. Assemelha-se aos sul-africanos descendentes de ingleses serem contrários ao apartheid. Algo surreal.
Somos sim um povo que defende a permanência dos seus privilégios de classe. É um povo que odeia povo. Diferente do resto do mundo, que vê a classe rica como ameaça, no Brasil a ameaça vem de baixo. Por isso, a torcida para que essa classe permaneça longe. Elevar parte dessa classe pobre a classe média foi o “maior mal” do PT contra a “elite” brasileira. Aqui na terra Brasilis o conceito de elite toma outra conotação, aqui quem paga IR pode ser considerado elite. Afinal, para um país que possui mais de 100 milhões de pobres pagar esse imposto é uma bênção divina!
João Goulart poderia muito bem depor sobre esse Brasil que não suporta qualquer arremedo de mudança. Devido a ele sofremos um golpe para evitar qualquer possibilidade de reformas. Lá fora diriam modernização aqui é comunismo. Somos sim atrasados, conservadores, oligarcas, denotado por um perfil ainda agroexportador. Vide pauta de exportação. A mesma mentalidade imperial aversa a modernização.
Queremos viver em uma sociedade europeia, limpa, segura, mas ainda somos apegados à servidão. Defendemos o direito de termos nossos cativos. Adoramos sermos bem servidos, de preferência com toques de humildade. Limpar a casa, lavar banheiro, andar de transporte público, se misturar em um espaço público, de forma alguma. Nesse pretenso país, possuir empregados domésticos é algo comum a quem é classe média! Não se espante europeu médio. Aqui você também terá o seu, basta pagar o equivalente à míseros 200 euros por mês. Porém, o PT teve a ousadia de garantir direitos trabalhistas a essa classe, veja que absurdo.
Admitimos viver todos os dias em um país extremamente desigual e injusto, sem o menor constrangimento. Nos acostumamos com a pobreza e acreditamos que a violência que nos cerca é culpa da polícia ou das leis. Não é piada de brasileiro amigo francês. Nosso futuro presidente emergirá dessa pauta. Garantirá a segurança com bala. Kkkk É realmente um país bizarro, muito complexo para ser explicado a um gringo.
Para você que mora na Europa e me pergunta se defendo bandido, respondo o seguinte: Se sonhar com um país com mais oportunidades, menos desigualdades sociais, maior mobilidade de classe, um índice de Gini próximo a um e por uma verdadeira meritocracia, é ser de esquerda, é ser PT, é ser Lula, então continuarei sendo tudo isso.
Ah, depois te apresento o índice de Gini do Brasil.
Abraço, amigo Europeu!
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