
O trem de carga entre Wuhan, na China, e Dourges, em Pas-de-Calais (França), não funciona desde o final de janeiro.
Foto: Decathlon
Professor da Faculdade CDL
Co-fundador da LogInov
Com
essa epidemia, podemos medir até que ponto as cadeias produtivas estão
interligadas, ou seja, a verdadeira amplitude da “logistização do mundo”, como
define a professora Nathalie Fabbes-Coste do Centro de Pesquisa em Transporte e
Logística (Cret-Log) da Universidade Aix-Marselha (AMU). Esse fato coloca em
questão a soberania econômica das nações, mas também revela questões ambientais
como matérias-primas que fazem um “vai e vem”, até se tornarem um produto
acabado. Um desses exemplo, é petróleo exportado para a China (60%) e o
combustível vendido nas bombas no Brasil.
Ao
se integrar o preço da tonelada de carbono em uma produção, pode se tornar
racional deslocar a produção para perto de casa. A Comissão Europeia está
trabalhando no projeto “green deal” (acordo verde) para que o preço por
tonelada de carbono seja incluído no preço da fabricação simples.
Neste
momento, são os sistemas de suprimento globalizados que revelam suas fraquezas.
Essa epidemia põe em questão as inúmeras cadeias de valor dependentes de
suprimentos no exterior, é o que destaca o professor Gilles Paché do mesmo
centro de pesquisa.
Por
outro lado, medidas para limitar a circulação de mercadorias e pessoas produzirão
impactos nos dois lados das cadeias de suprimento: no lado dos suprimentos, a ocorrência
de rupturas nas cadeias produtivas e; no lado da distribuição, as consequências
da redução do consumo dos chineses que pode gerar declínio em praticamente
todas as cadeias de produção global.
Em busca
de saída para os problemas de abastecimento, as empresas se deparam com o
seguinte dilema: esperar que a situação se resolva dentro de algumas semanas?
Ou procurar fornecedores alternativos?
Procurar
um fornecedor alternativo, às vezes, exige tempo e gera custos adicionais. Na
indústria automotiva, pode-se levar mais de um ano para que os fornecedores
produzam ferramentas. Para uma peça de avião, são necessários quatro anos para
se qualificar como fornecedor. Para outros setores, como de confecção, é muito
mais rápido.
Todas
as grandes empresas de moda têm fábricas na China. A empresa Inditex, por
exemplo, possui mais de 1.866 fábricas no país que colaboram para o grupo. A
Zara, uma de suas 8 marcas, possui 425 fornecedores lá. Quanto à sua
concorrente H&M, 45% de seus fornecedores são chineses e 44% de suas
fábricas estão neste país. No entanto, já é possível verificar uma
relocalização de fábricas para Turquia e Marrocos.
Mas
antes, cabe outra pergunta: as empresas conhecem sua dependência de
fornecedores chineses?
Na
maioria das vezes, as empresas não sabem. Isso porque, compram peças de
empresas das quais não conhecem os fornecedores. Portanto, o mais indicado
seria que os gestores rastreassem suas cadeias de suprimentos e conhecessem a
origem dos seus produtos, ou seja, os fornecedores dos seus fornecedores.
A
questão da vulnerabilidade das cadeias de suprimentos é, e será cada vez mais,
um elemento-chave das reflexões a serem conduzidas no campo da administração de
riscos. Identificar fontes de vulnerabilidade para demonstrar maior resiliência
certamente será o grande desafio para os próximos anos. Isto porque, as
economias modernas tornaram-se reféns, em suas operações, de micro distúrbios
internos ou externos. Algo semelhante ocorreu em maio de 2018 na economia
brasileira com a greve dos caminheiros.
No
Brasil, a empresa Flextronics, fabricante dos celulares da Motorola, programou
um revezamento de férias coletivas entre os 3,5 mil funcionários do complexo de
Jaguariúna (SP). A operação está reduzida desde o mês passado porque os
suprimentos para montagem dos aparelhos vêm da China e o reabastecimento ainda
não se normalizou. Já a Samsung, que possui linha de produção em Campinas
(SP), chegou a paralisar suas atividades por três dias em fevereiro.
De
acordo com Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), 42%
dos componentes elétricos e eletrônicos utilizados no Brasil são provenientes
da China, principal origem das importações, totalizando US$ 7,5 bilhões em
2019. Destaca-se também que os demais países da Ásia foram responsáveis por 38%
das importações desses componentes em 2019. Portanto, a região da Ásia
representa 80% da origem.
Principal Orgiem das Importações de Componentes Elétricos e
Eletrônicos - 2019
Fonte: Abinee/MDIC/Secex
De
acordo com a Abinee as dificuldades atuais “acendem um sinal de alerta” não
apenas para o setor eletroeletrônico como para toda a indústria brasileira que
depende de materiais e componentes provenientes de um único mercado, como a
China. Segundo a pesquisa, as empresas devem demorar, em média, cerca de dois
meses para normalizar o ritmo da produção, após a retomada dos embarques de
materiais, componentes e insumos da China.
Para
a consultoria inglesa Drewry, o setor de transporte de contêineres não é tão
exposto aos problemas de coronavírus quanto os setores de companhias aéreas ou
de turismo, mas o impacto a curto prazo é aparente. Uma queda de 30% no volume
de contêineres na China significa uma redução de 9% no volume global de
contêineres. As transportadoras marítimas cancelaram cerca de 105 travessias
nas rotas da Ásia para as regiões da América do Norte e Europa em fevereiro.
Este cancelamento representa um déficit de receita de aproximadamente US$ 1
bilhão (105 x 10.000 TEUs x US$ 1.000), dos quais uma parte será composta
posteriormente, mas os danos a curto prazo nos lucros das transportadoras são
amplos.
A
indústria farmacêutica europeia apresenta um problema semelhante, uma vez que
80% dos princípios ativos usados na composição de medicamentos são originários
da China. Sobre essa problemática, a secretária do Ministério da Economia da
França, Agnès Runacher, lançou uma missão sobre os riscos de escassez de
medicamentos no país e na Europa. De acordo com ela, foram estabelecidas metas para
recuperar a soberania em áreas estratégicas. Existe uma política de reconquista
industrial. Por exemplo, a empresa de medicamentos Sanofi almeja se tornar uma
líder europeia em princípios ativos. Outras industriais devem se juntar neste
projeto.
Para
Runacher, a transformação para a fábrica do futuro, que é mais automatizada e
personalizada, possibilita prever realocações, ainda mais com o aumento dos
custos na Ásia. Assim, a França tem conseguido recriar empregos industriais nos
últimos três anos. A tendência é tornar séries menores e mais próximas dos
mercados, ou seja, a aplicação pura dos conceitos de just-in-time. O
modelo de produção dominante das últimas décadas, com uma grande fábrica
produzindo grandes volumes com o menor custo possível, passou a ser questionada.
Esperava-se
que a globalização e os avanços nas tecnologias aplicadas a logística
possibilitariam mais liberdade e flexibilidade para as cadeias de suprimento,
introduzindo a racionalidade no controle de fluxo. Ou que os padrões de tráfego
estariam perfeitamente parametrizados para funcionarem de forma eficaz,
possibilitando redução de custos e atrasos, atingindo mercados consumidores
cada vez mais distantes.
E neste momento, o aparecimento do vírus Covid-19 demonstra uma fragilidade inesperada das cadeias de suprimentos globalizadas, a qual expõe as consequências das escolhas industriais que acabam ameaçando o estilo de vida e consumo. Portanto, seja em nível global ou local, a paralisia das cadeias de suprimentos representa uma ameaça constante para as empresas e, mais amplamente, para as sociedades.
Referências:
L’épidémie de coronavirus
révèle à quel point les chaînes de production sont imbriquées. https://www.la-croix.com/Debats/Forum-et-debats/Lepidemie-coronavirus-revele-quel-point-chaines-production-sont-imbriquees-2020-02-26-1201080550
Decathlon dossiers de presse. https://www.decathlon.media/shared/dossiers-presse/pdfs/dp_trainvf_luowt4eb.pdf
Associação Brasileira da Indústria Elétrica e
Eletrônica – Abinee. http://www.abinee.org.br/noticias/com183.htm
Coronavirus
to cut multipurpose cargo demand growth prospects. https://www.drewry.co.uk/maritime-research-opinion-browser/maritime-research-opinions
El coronavirus traslada la fábrica española textil
en China a Turquía y Marruecos. https://www.elmundo.es/economia/ahorro-y-consumo/2020/02/15/5e4533b8fc6c83ff098b463f.html
Coronavirus : un révélateur de la fragilité du système logistique mondial. https://theconversation.com/coronavirus-un-revelateur-de-la-fragilite-du-systeme-logistique-mondial-132780
Fabricante da Motorola mantém operação reduzida por conta de coronavírus e reveza férias coletivas. https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/03/02/fabricante-da-motorola-mantem-operacao-reduzida-por-conta-de-coronavirus-e-reveza-ferias-coletivas.ghtml

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