quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Coronavírus revela a fragilidade e dependência das cadeias de suprimento

 


O trem de carga entre Wuhan, na China, e Dourges, em Pas-de-Calais (França), não funciona desde o final de janeiro.
Foto: Decathlon

 

Igor Pontes, Doutor em Logística
Professor da Faculdade CDL
Co-fundador da LogInov

  Coronavírus revela a fragilidade e dependência das cadeias de suprimento

 A revolução logística ocorrida nos últimos anos, acompanhada de uma abordagem global e sistêmica da gestão da cadeia de suprimentos (SCM), agora é colocada a prova pelo vírus Covid-19. De fato, muitos modelos de logística podem ser prejudicados, como é o caso dos trens que transportam, desde 2017, centenas de milhares de artigos esportivos da empresa Decathlon entre Wuhan, o berço do referido vírus, e a cidade de Dourges (Pas- de-Calais), na França.

Com essa epidemia, podemos medir até que ponto as cadeias produtivas estão interligadas, ou seja, a verdadeira amplitude da “logistização do mundo”, como define a professora Nathalie Fabbes-Coste do Centro de Pesquisa em Transporte e Logística (Cret-Log) da Universidade Aix-Marselha (AMU). Esse fato coloca em questão a soberania econômica das nações, mas também revela questões ambientais como matérias-primas que fazem um “vai e vem”, até se tornarem um produto acabado. Um desses exemplo, é petróleo exportado para a China (60%) e o combustível vendido nas bombas no Brasil.

Ao se integrar o preço da tonelada de carbono em uma produção, pode se tornar racional deslocar a produção para perto de casa. A Comissão Europeia está trabalhando no projeto “green deal” (acordo verde) para que o preço por tonelada de carbono seja incluído no preço da fabricação simples.

Neste momento, são os sistemas de suprimento globalizados que revelam suas fraquezas. Essa epidemia põe em questão as inúmeras cadeias de valor dependentes de suprimentos no exterior, é o que destaca o professor Gilles Paché do mesmo centro de pesquisa.

Por outro lado, medidas para limitar a circulação de mercadorias e pessoas produzirão impactos nos dois lados das cadeias de suprimento: no lado dos suprimentos, a ocorrência de rupturas nas cadeias produtivas e; no lado da distribuição, as consequências da redução do consumo dos chineses que pode gerar declínio em praticamente todas as cadeias de produção global.

Em busca de saída para os problemas de abastecimento, as empresas se deparam com o seguinte dilema: esperar que a situação se resolva dentro de algumas semanas? Ou procurar fornecedores alternativos?

Procurar um fornecedor alternativo, às vezes, exige tempo e gera custos adicionais. Na indústria automotiva, pode-se levar mais de um ano para que os fornecedores produzam ferramentas. Para uma peça de avião, são necessários quatro anos para se qualificar como fornecedor. Para outros setores, como de confecção, é muito mais rápido.

Todas as grandes empresas de moda têm fábricas na China. A empresa Inditex, por exemplo, possui mais de 1.866 fábricas no país que colaboram para o grupo. A Zara, uma de suas 8 marcas, possui 425 fornecedores lá. Quanto à sua concorrente H&M, 45% de seus fornecedores são chineses e 44% de suas fábricas estão neste país. No entanto, já é possível verificar uma relocalização de fábricas para Turquia e Marrocos.

Mas antes, cabe outra pergunta: as empresas conhecem sua dependência de fornecedores chineses?

Na maioria das vezes, as empresas não sabem. Isso porque, compram peças de empresas das quais não conhecem os fornecedores. Portanto, o mais indicado seria que os gestores rastreassem suas cadeias de suprimentos e conhecessem a origem dos seus produtos, ou seja, os fornecedores dos seus fornecedores.

A questão da vulnerabilidade das cadeias de suprimentos é, e será cada vez mais, um elemento-chave das reflexões a serem conduzidas no campo da administração de riscos. Identificar fontes de vulnerabilidade para demonstrar maior resiliência certamente será o grande desafio para os próximos anos. Isto porque, as economias modernas tornaram-se reféns, em suas operações, de micro distúrbios internos ou externos. Algo semelhante ocorreu em maio de 2018 na economia brasileira com a greve dos caminheiros.

No Brasil, a empresa Flextronics, fabricante dos celulares da Motorola, programou um revezamento de férias coletivas entre os 3,5 mil funcionários do complexo de Jaguariúna (SP). A operação está reduzida desde o mês passado porque os suprimentos para montagem dos aparelhos vêm da China e o reabastecimento ainda não se normalizou. Já a Samsung, que possui linha de produção em Campinas (SP), chegou a paralisar suas atividades por três dias em fevereiro.

De acordo com Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), 42% dos componentes elétricos e eletrônicos utilizados no Brasil são provenientes da China, principal origem das importações, totalizando US$ 7,5 bilhões em 2019. Destaca-se também que os demais países da Ásia foram responsáveis por 38% das importações desses componentes em 2019. Portanto, a região da Ásia representa 80% da origem.

Principal Orgiem das Importações de Componentes Elétricos e Eletrônicos - 2019

Fonte: Abinee/MDIC/Secex

De acordo com a Abinee as dificuldades atuais “acendem um sinal de alerta” não apenas para o setor eletroeletrônico como para toda a indústria brasileira que depende de materiais e componentes provenientes de um único mercado, como a China. Segundo a pesquisa, as empresas devem demorar, em média, cerca de dois meses para normalizar o ritmo da produção, após a retomada dos embarques de materiais, componentes e insumos da China.

Para a consultoria inglesa Drewry, o setor de transporte de contêineres não é tão exposto aos problemas de coronavírus quanto os setores de companhias aéreas ou de turismo, mas o impacto a curto prazo é aparente. Uma queda de 30% no volume de contêineres na China significa uma redução de 9% no volume global de contêineres. As transportadoras marítimas cancelaram cerca de 105 travessias nas rotas da Ásia para as regiões da América do Norte e Europa em fevereiro. Este cancelamento representa um déficit de receita de aproximadamente US$ 1 bilhão (105 x 10.000 TEUs x US$ 1.000), dos quais uma parte será composta posteriormente, mas os danos a curto prazo nos lucros das transportadoras são amplos.

A indústria farmacêutica europeia apresenta um problema semelhante, uma vez que 80% dos princípios ativos usados na composição de medicamentos são originários da China. Sobre essa problemática, a secretária do Ministério da Economia da França, Agnès Runacher, lançou uma missão sobre os riscos de escassez de medicamentos no país e na Europa. De acordo com ela, foram estabelecidas metas para recuperar a soberania em áreas estratégicas. Existe uma política de reconquista industrial. Por exemplo, a empresa de medicamentos Sanofi almeja se tornar uma líder europeia em princípios ativos. Outras industriais devem se juntar neste projeto.

Para Runacher, a transformação para a fábrica do futuro, que é mais automatizada e personalizada, possibilita prever realocações, ainda mais com o aumento dos custos na Ásia. Assim, a França tem conseguido recriar empregos industriais nos últimos três anos. A tendência é tornar séries menores e mais próximas dos mercados, ou seja, a aplicação pura dos conceitos de just-in-time. O modelo de produção dominante das últimas décadas, com uma grande fábrica produzindo grandes volumes com o menor custo possível, passou a ser questionada.

Esperava-se que a globalização e os avanços nas tecnologias aplicadas a logística possibilitariam mais liberdade e flexibilidade para as cadeias de suprimento, introduzindo a racionalidade no controle de fluxo. Ou que os padrões de tráfego estariam perfeitamente parametrizados para funcionarem de forma eficaz, possibilitando redução de custos e atrasos, atingindo mercados consumidores cada vez mais distantes.

E neste momento, o aparecimento do vírus Covid-19 demonstra uma fragilidade inesperada das cadeias de suprimentos globalizadas, a qual expõe as consequências das escolhas industriais que acabam ameaçando o estilo de vida e consumo. Portanto, seja em nível global ou local, a paralisia das cadeias de suprimentos representa uma ameaça constante para as empresas e, mais amplamente, para as sociedades.

Referências:
L’épidémie de coronavirus révèle à quel point les chaînes de production sont imbriquées. https://www.la-croix.com/Debats/Forum-et-debats/Lepidemie-coronavirus-revele-quel-point-chaines-production-sont-imbriquees-2020-02-26-1201080550
Decathlon dossiers de presse. https://www.decathlon.media/shared/dossiers-presse/pdfs/dp_trainvf_luowt4eb.pdf
Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – Abinee. http://www.abinee.org.br/noticias/com183.htm
Coronavirus to cut multipurpose cargo demand growth prospects. https://www.drewry.co.uk/maritime-research-opinion-browser/maritime-research-opinions
El coronavirus traslada la fábrica española textil en China a Turquía y Marruecos. https://www.elmundo.es/economia/ahorro-y-consumo/2020/02/15/5e4533b8fc6c83ff098b463f.html

Coronavirus : un révélateur de la fragilité du système logistique mondial. https://theconversation.com/coronavirus-un-revelateur-de-la-fragilite-du-systeme-logistique-mondial-132780

Fabricante da Motorola mantém operação reduzida por conta de coronavírus e reveza férias coletivas. https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/03/02/fabricante-da-motorola-mantem-operacao-reduzida-por-conta-de-coronavirus-e-reveza-ferias-coletivas.ghtml



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